«Tudo o que altere as potencialidades genéticas com as quais o indivíduo nasceu é doping»
Docente catedrático de Biologia do Desporto da Faculdade de Desporto e Educação Física da Universidade do Porto e responsável pelo Laboratório de Bioquímica e Morfologia Experimental, José Alberto Duarte mostra-se céptico sobre a possibilidade a médio prazo de uma ligação forte entre a genética e o desporto. No entanto, não concorda que um atleta possa melhorar as características genéticas com as quais se desenvolveu.
PÚBLICO: É possível que as técnicas apontadas pela revista “Sciences et Avenir” venham a ser utilizadas pelos atletas?
JOSÉ ALBERTO DUARTE: Pelos atletas, de forma consciente, eu não creio. É possível que a genética seja utilizada por mentes perversas, especializadas em fisiologia ou medicina desportiva. Mas se o atleta tiver consciência dos riscos, é evidente que nunca aceitará esse tipo de dopagem.
O esqueleto e os tendões de um atleta geneticamente modificado conseguirão aguentar o aumento da massa muscular ou o surgimento de fibras ultra-rápidas?
Esses são males menores. O desporto de alta competição não tem nada a ver com saúde. Muitos atletas têm problemas crónicos artríticos, musculares e nos tendões em consequência da sobrecarga de treinos e do pouco tempo de recuperação. Se as sobrecargas forem mal geridas, os atletas desenvolvem patologias crónicas, como fracturas de fadiga, artroses ou tendinites crónicas. Caso se recorra à dopagem genética, estas doenças crónicas aumentam, mas o principal problema tem a ver com as alterações do ciclo das células. E o grande risco está a nível cancerígeno, com factores de crescimento ou a utilização de genes, transportados por vírus.
A genética já é aplicada para resolver problemas físicos, como lesões?
Não, apenas em termos experimentais, ainda sem aplicabilidade prática. Há alguns trabalhos, particularmente a nível do músculo-esquelético, onde se tenta acelerar o processo de recuperação após o exercício, a regeneração do próprio músculo, através de células multipotenciais. Já se testam em animais, mas em humanos não tenho conhecimento.
E a possibilidade de a genética ajudar a regenerar as cartilagens dos joelhos, através da sua duplicação em laboratório?
É possível duplicar estas células em laboratório, não se sabe muito bem é se, ao reintroduzi-las, elas vão aderir à cartilagem e se haverá uma regeneração cartilagínea. Se assim fosse, já há muito tempo que estaria resolvido o problema da artrose, que é um dos males que mais atinge os idosos e é extremamente incapacitante.
Estamos longe de um cenário em que a genética domina o desporto?
Acho que neste momento ainda não há capacidade para alguém, de forma consciente, segura, poder usar técnicas deste tipo com vista a atingir determinado fim. Há muitos factores ainda não controlados. Eu trabalho com DNA na faculdade e se alguém me dissesse ‘vamos iniciar um projecto para 2008 termos atletas dopados geneticamente’, eu não aceitaria nem teria capacidade para o fazer. Há grandes laboratórios a nível mundial que tenham outras capacidades, mas as certezas nos resultados ainda são muito poucas.
É possível que a este nível se repita o que aconteceu com alguns medicamentos, que apareceram primeiro nos circuitos desportivos e só depois nas farmácias...
Sim, mas a tecnologia é muito cara e não vai ser acessível a qualquer pessoa. Vejo com algumas dúvidas a experimentação a nível dos atletas.
Há especialistas que admitem que a manipulação genética no desporto venha a ser aceite socialmente, se não colocar em perigo a saúde dos atletas...
Não! De maneira nenhuma! Para seu orgulho e satisfação pessoal, um atleta pode tentar um desses tipos de tratamentos, mas continua a ser “doping”.
E se um atleta tiver sido alvo de uma alteração genética durante a infância ou quando ainda era apenas um feto? Trata-se de “doping”?
Cada caso é um caso. Se um indivíduo tiver uma artrose e houver possibilidades de voltar a competir, restabelecendo-lhe as articulações, não considerarei “doping”. Estaremos a dar-lhe a normalidade que ele antes já possuía, não lhe estaremos a melhorar as características com as quais ele nasceu. Tudo o que altere as potencialidades genéticas com as quais o indivíduo nasceu é “doping”.´

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home